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Engajamento de liderança: por que quem lidera mais sofre

Por Descola Cursos Inovadores7 min de leitura

O paradoxo de quem mais se esgota

O engajamento de liderança caiu de 31% para 22% em três anos. No mesmo período, a raiva relatada por líderes subiu 12 pontos percentuais em relação ao resto do time. Ninguém perguntou, até agora, por que os dois números se movem juntos. É esse o buraco que a State of the Global Workplace 2026, da Gallup, deixa exposto: o cargo que a empresa mais celebra como “engajado” é, ao mesmo tempo, o mais esgotado.

O dado não é sutil. Gestores relataram, no dia anterior à pesquisa, níveis de estresse (+7 pontos), raiva (+12), tristeza (+11) e solidão (+10) mais altos do que os demais funcionários. Setenta e um por cento dizem que o estresse aumentou desde que assumiram o cargo. E, ainda assim, esse é o grupo que a empresa mais frequentemente descreve como “engajado” — porque engajamento, do jeito que a maioria mede, não captura sofrimento. Captura intenção declarada de continuar se esforçando.

O dado: engajamento de liderança em queda livre, sofrimento em alta

Em 2022, 31% dos gestores globalmente eram classificados como engajados pela metodologia Gallup. Em 2025, esse número caiu para 22% — uma queda de nove pontos em três anos, num momento em que a maioria das empresas dizia estar investindo mais, não menos, em desenvolvimento de liderança. O engajamento geral da força de trabalho também está baixo: apenas 20% dos funcionários no mundo foram classificados como engajados em 2025, um número que a Gallup estima custar 10 trilhões de dólares em produtividade perdida globalmente.

Mas o dado que muda a leitura do problema é outro: organizações consideradas de melhor prática registram engajamento de gestores de 79% — quase quatro vezes a média global. Isso significa que o esgotamento não é o preço inevitável de ocupar um cargo de liderança. É sintoma de como a liderança é desenhada, preparada e sustentada em cada organização específica. A distância entre 22% e 79% não é sorte. É decisão de investimento.

Segundo a Gallup, o engajamento de gestores em queda e o que as melhores organizações alcançam

Gestores engajados em 202231%
Gestores engajados em 202522%
Engajamento de gestores nas organizações de melhor prática79%
Fonte: Gallup, State of the Global Workplace 2026

O Paradoxo do Engajamento de Quem Lidera

A cultura corporativa tradicional trata liderança como o posto mais comprometido da hierarquia — quem lidera “veste a camisa”, “dá o exemplo”, está sempre disponível. O dado da Gallup mostra que essa narrativa esconde metade da história. É verdade que líderes relatam mais engajamento no sentido de comprometimento com o trabalho. Também é verdade que são o grupo que mais sofre emocionalmente no exercício do cargo. As duas coisas não se cancelam. Coexistem.

Isso quebra uma premissa comum em RH: a de que engajamento alto é sinônimo de bem-estar alto. Não é. Engajamento, na forma como normalmente é medido, é uma métrica de intenção e esforço declarado — não uma métrica de estado emocional. Um líder pode estar profundamente engajado com o resultado do time e, ao mesmo tempo, estar em colapso emocional silencioso, porque a pesquisa de engajamento nunca perguntou como ele estava se sentindo. Perguntou se ele “recomendaria a empresa como um bom lugar para trabalhar”. São perguntas diferentes, e tratá-las como a mesma coisa é o erro de medição que sustenta o paradoxo.

O contraste com as organizações de melhor prática (79% de engajamento de gestores) sugere que o problema tem solução — mas não é uma solução de “resiliência individual” ou de curso motivacional pontual. É desenho estrutural: quanta autonomia o gestor tem para decidir, quanto suporte recebe para lidar com conflito e mudança constante, e se a organização mede o bem-estar dele com a mesma seriedade com que mede a entrega dele.

Vale perguntar por que essa dissonância se instalou justamente agora. Parte da resposta está no tipo de mudança que o gestor intermediário tem sido chamado a administrar nos últimos anos: estruturas mais enxutas, com menos camadas de gestão e mais pessoas reportando ao mesmo líder; decisões tomadas no topo — sobre modelo de trabalho, sobre reorganização, sobre corte — que chegam ao time pela boca do gestor, sem que ele tenha participado da decisão nem tenha autoridade real para ajustá-la.

O gestor intermediário virou, ao mesmo tempo, quem mais precisa explicar a mudança e quem menos controla o conteúdo dela. Engajamento medido como comprometimento sobrevive a essa condição. Bem-estar, não.

O gestor intermediário virou, ao mesmo tempo, quem mais precisa explicar a mudança e quem menos controla o conteúdo dela.

A opinião da Descola

Um velho conhecido para nós

Faz tempo que a Descola argumenta que o problema da liderança contemporânea não é falta de técnica de gestão — é falta de repertório para sustentar o cargo em condição de mudança e desconforto constantes.

Já escrevemos sobre isso em As empresas não têm falta de bons profissionais. Elas têm excesso de líderes despreparados!, onde citamos outro dado da Gallup — o de que gestores respondem por até 70% da variação no engajamento de suas equipes. O dado de 2026 completa esse argumento: se o gestor carrega uma parcela tão grande do engajamento do time e, ao mesmo tempo, é quem mais sofre estresse e solidão no cargo, a conta não fecha sem investimento estrutural em quem lidera — não só em quem é liderado.

É esse o raciocínio por trás de cursos como o Liderança Para Mudança: não tratar mudança organizacional como um evento pontual que o líder precisa “gerenciar” com um kit de ferramentas, mas como um estado permanente que exige repertório emocional sustentável — regulação do desconforto, leitura de sinais fracos no time e capacidade de sustentar decisões sem certeza total. É repertório treinado, não traço de personalidade fixo.

Mas existe uma segunda pergunta importante: que modelos de liderança estamos ensinando e quem consegue se reconhecer neles?

A trilha Liderança Plural parte justamente dessa provocação. Liderar não deveria significar reproduzir um único modelo de comportamento — geralmente associado a autoridade, controle, disponibilidade permanente e certeza. Desenvolver lideranças também significa ampliar o repertório possível: reconhecer diferentes formas de exercer influência, tomar decisões, lidar com conflitos e construir confiança.

E isso ganha uma dimensão ainda mais importante quando falamos de Liderança Feminina. Mulheres que chegam a posições de liderança frequentemente precisam navegar não apenas pelos desafios comuns do cargo, mas também por expectativas e padrões de comportamento diferentes daqueles impostos aos homens.

Desenvolver essas lideranças não deveria significar ensiná-las a reproduzir o modelo tradicional de liderança, mas ampliar suas possibilidades de atuação e fortalecer sua capacidade de ocupar espaços de decisão.

Talvez esse seja um dos pontos centrais do dado da Gallup: se queremos líderes mais engajados e menos esgotados, não basta ensinar as pessoas a suportar melhor um modelo de liderança que já está dando sinais de desgaste. Precisamos também questionar o próprio modelo.

Desenvolver liderança, nesse contexto, é menos sobre formar pessoas capazes de “dar conta de tudo” e mais sobre criar repertório para liderar de diferentes maneiras — em contextos de mudança, diversidade, conflito e incerteza.

Aterrissagem prática para quem desenvolve líderes

O paradoxo do engajamento de liderança não se resolve com mais pesquisa de clima. Resolve-se mudando o que a organização decide medir e sustentar. Alguns movimentos concretos para quem lidera T&D e desenvolvimento de liderança:

  1. Separar, nas pesquisas internas, a pergunta sobre engajamento (comprometimento com o resultado) da pergunta sobre bem-estar (estado emocional real). Tratá-las como a mesma métrica é o que permite o paradoxo passar despercebido.
  2. Olhar o intervalo entre 22% (média global) e 79% (melhor prática) como uma pergunta de desenho organizacional, não de esforço individual do líder: quanta autonomia de decisão esse gestor tem, quanto suporte recebe em conflito, quanta clareza tem sobre prioridade.
  3. Priorizar desenvolvimento de liderança que trate mudança constante como condição permanente do cargo — não como módulo isolado de treinamento sobre “gestão de mudança” feito uma vez e arquivado.
  4. Medir sinais precoces de esgotamento em quem lidera com a mesma disciplina com que se mede entrega — antes que a queda de nove pontos em três anos vire uma queda ainda maior.
  5. Rever quanta decisão de fato chega às mãos do gestor intermediário antes de comunicada ao time. Pedir que alguém sustente emocionalmente uma mudança que não ajudou a desenhar é o tipo de descompasso que nenhum treinamento de comunicação resolve sozinho — resolve-se dando repertório de decisão junto com a responsabilidade de comunicar.

A pergunta que fica não é “como motivamos mais os líderes”. É: a organização está disposta a medir o que realmente acontece com quem lidera, mesmo quando o número for desconfortável?


Fonte citada: Gallup · State of the Global Workplace 2026 · https://www.gallup.com/workplace/349484/state-of-the-global-workplace.aspx Referências internas: Curso Liderança Para Mudança trilha Liderança Plural Post As empresas não têm falta de bons profissionais. Elas têm excesso de líderes despreparados!

Na prática

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Em resumo

  • Segundo a Gallup, o engajamento de liderança caiu de 31% em 2022 para 22% em 2025, uma queda de nove pontos em três anos.
  • Gestores relatam mais estresse, raiva, tristeza e solidão do que os demais funcionários, e 71% dizem que o estresse aumentou desde que assumiram o cargo.
  • Organizações de melhor prática registram 79% de engajamento de gestores, quase quatro vezes a média global.
  • Engajamento mede intenção e esforço declarado, não estado emocional, e tratar os dois como a mesma métrica esconde o esgotamento de quem lidera.
  • Reduzir o esgotamento de líderes pede desenho estrutural: mais autonomia de decisão, suporte em conflito e medição do bem-estar de quem lidera.

Perguntas frequentes

Por que os gestores estão mais esgotados que suas equipes?

Parte da resposta está no tipo de mudança que o gestor intermediário administra: estruturas mais enxutas e decisões tomadas no topo que chegam ao time pela boca dele, sem que tenha participado delas. Ele virou quem mais precisa explicar a mudança e quem menos controla o conteúdo dela.

Engajamento alto significa bem-estar alto?

Não. Engajamento, na forma como normalmente é medido, é uma métrica de intenção e esforço declarado. Um líder pode estar profundamente engajado com o resultado do time e, ao mesmo tempo, em colapso emocional silencioso.

Como reduzir o esgotamento de líderes?

Separando nas pesquisas internas a pergunta sobre engajamento da pergunta sobre bem-estar, medindo sinais precoces de esgotamento e revendo quanta decisão de fato chega às mãos do gestor intermediário.

Fontes

  1. Gallup, State of the Global Workplace 2026.

Escrito pela Descola

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